Laboratório · 2003–2025

O que o Estado fez com o Brasil desde 2003.

Crescimento, contas, pobreza, homicídio e Bolsa Família, em série oficial, ano a ano, comparados com o mundo e com o mandato seguinte. Não há milagre de presidente, e o cheque não fica escondido.

Quatro fotografias

Começo de Lula 1, fim do boom, fim de Bolsonaro e o último dado de Lula 3. Os gráficos abaixo são anuais e comparados.

O que Lula objetivamente fez

2003–2010 · o que os números mostram

Lula 1 e 2: o cheque cresceu, a dívida externa caiu, o tripé de FHC foi administrado, e a China pagou o jantar.

O que é fato, não panfleto: a extrema pobreza caiu de 17,1% para cerca de 8%, a dívida externa de 43,6% do RNB para 16,5%, e o superávit primário ficou perto de 3% até 2008. Bolsa Família unificou programas de FHC e escalou. Depois do pico de 2004, o desmate caiu, e a inflação de 14,7% da crise de 2002 voltou à meta. O que também é fato, e o arquivo da esquerda omite: o PIB a 4,1% coincidiu com o superciclo, porque o Peru fez 6,3% e a Argentina 6,5%. Câmbio flutuante, metas de inflação e a LRF são de 1999–2000, então Palocci administrou o que não inventou. O homicídio quase não se moveu, e o investimento nunca passou de 22%. Mensalão, em 2005, e o começo do Petrolão são deste período. Reforma da Previdência, tributária e trabalhista não vieram. O teste de uma política é o que sobra quando a maré sobe. Sobraram clientela, um partido dono do Estado, e um sucessor escolhido à mão.

O que o arquivo não inventaOs indicadores sociais e externos de 2003–10 melhoram, e negar o número seria mentira. Celebrá-lo como desenvolvimento, com investimento estagnado e um Mensalão no meio, é outra mentira, a do Estado-salvador.

2011–2016 · a conta que chegou

Dilma é continuação do PT, não um outro país. A Nova Matriz fecha o superávit, o investimento cai, o PIB encolhe dois anos seguidos.

2014 é o primeiro déficit primário da Nova República nessa série. 2015 (−3,5%) e 2016 (−3,3%) são a pior recessão em décadas. O PIB por cabeça volta ao nível de 2008–09. O desemprego sobe de 6,8% para 11,6%. A extrema pobreza, que tinha ido a 4,8%, volta a 6,5%. A dívida líquida sobe de 31% para 48%. O homicídio caminha para o pico de 2017. A Nova Matriz Econômica (juro baixo, crédito dirigido, contabilidade criativa) é escolha de política, não de commodities, porque o minério já tinha esfriado e o Chile não teve recessão de 3%+ dois anos. O impeachment veio em 2016, e Lula escolheu a sucessora. Contar 2003–10 e parar o filme é outro tipo de campanha.

2019–2025 · dois governos, duas contas

Bolsonaro faz a única reforma estrutural do século. Lula 3 devolve o cheque e reabre o déficit, com o mesmo tribunal calando a oposição.

A Previdência de 2019 é a reforma que Lula não fez em oito anos. O Auxílio de 2020 deu a menor extrema pobreza da série (2,8%) e o maior buraco primário (−9,2%), o cheque de novo. A Amazônia sobe, ainda assim o homicídio segue a queda de 2018. 2022 fecha com primário de +1,3% e Auxílio Brasil em 21 milhões, em ano eleitoral. Lula 3 chega com pobreza e desemprego nas mínimas, PRODES em 6.288 km², o primário de volta ao vermelho, dívida bruta de 71,7% para 78,6%, o resultado nominal perto de −8% do PIB e um Bolsa maior que em 2010. O crescimento está na média mundial, não no milagre de 2004. Sem reforma do gasto, a dívida não reconverge. O relator que toca o inquérito da fala teve a casa faturando R$ 80 milhões do Master. Isso não cabe num gráfico de PIB, então cabe no pilar STF.

O que o arquivo não inventaPobreza, emprego e Amazônia 2023–25 não dizem que Lula 3 só piorou o país. Dizem que o cheque e o enforcement florestal funcionam, e que o fiscal e o tribunal são o preço. O arquivo registra os quatro.

Crescimento ao lado dos vizinhos

Média anual do PIB real. Mesmo indicador do Banco Mundial para todos. Peru cresceu mais no boom; o Brasil, depois, cresceu menos que o mundo.

País2003–102011–162019–222023–252003–25
Brasil4,1%0,4%1,4%3,0%2,3%
Chile4,6%3,6%2,0%2,0%3,4%
Peru6,3%4,7%1,9%2,2%4,3%
México1,7%2,5%0,3%1,7%1,7%
Argentina6,5%0,9%1,1%0,4%2,8%
Mundo3,2%3,0%2,4%2,9%3,0%
World Bank / IBGE

As séries, ano a ano

  • Lula 1–2
  • Dilma
  • Temer
  • Bolsonaro
  • Lula 3

Crescimento do PIB real

% ao ano

Crescimento não é favor do presidente. Em 2003–10 o Brasil surfou a mesma onda de minério e soja que o Peru (mais rápido) e o Chile. O teste é o que se faz com a renda, porque o investimento nunca passou de 22% do PIB, enquanto a Ásia oriental compõe a 30%+. Dilma comeu o superávit, então o colchão fiscal desapareceu. Lula 3 cresce na média mundial com um quarto do país no Bolsa Família. Não há soluções, só trade-offs: aqui, clientela maior e estoque de capital menor.

World Bank / IBGE

PIB por habitante (constante)

US$ de 2015

De 2003 a 2010 o brasileiro ficou 27% mais rico em termos reais, com minério a US$ 180 e juro caindo. De 2010 a 2016 perdeu o que Dilma somou. Em 2025 (US$ 9.748) mal passa o pico de 2013. Vinte e dois anos para +40% dão 1,5% ao ano por cabeça, e a Coreia do Sul fazia isso por década. Não é milagre: é mediocridade com pico de commodity.

World Bank

Investimento (formação bruta de capital)

% do PIB

O teto recente é 21,8% do PIB em 2010–11. Nunca chegou ao patamar leste-asiático de 30% ou mais. Depois de 2014 o investimento desaba a 15% e não volta. Um país que consome o boom de commodities sem elevar a taxa de investimento deixa o crescimento seguinte mais pobre. Isso vale para Lula 2 e para Dilma.

World Bank

Resultado primário do setor público

% do PIB (superávit = positivo)

Série BCB SGS 5793 (NFSP 12 meses), sinal invertido para o uso comum: positivo = superávit. Lula 1–2 herdou o tripé de FHC e entregou 3%+ de superávit até 2008. O superávit morre em 2014, já na Dilma. 2020 é o tombo da COVID (−9,2%). Bolsonaro fecha 2022 com +1,3%. Lula 3 reabre déficit (−2,3% em 2023, −0,4% em 2024–25). O resultado nominal, que inclui juros, está em torno de −8,3% do PIB em 2025 (BCB via Trading Economics). O juro da dívida, não só o primário, é o buraco visível hoje.

Banco Central do Brasil

Dívida bruta do governo geral

% do PIB

Série BCB SGS 13762, dezembro de cada ano. A mínima é 51,3% em 2011 e a máxima 86,9% em 2020. Bolsonaro reduz a 71,7% em 2022; Lula 3 sobe a 78,6% em 2025. A comparação internacional do FMI costuma pintar o Brasil mais endividado, porque as metodologias diferem. O que não difere: a dívida parou de cair em 2014 e não voltou ao piso.

Banco Central do Brasil

Dívida líquida do setor público

% do PIB

Série BCB SGS 4536. Cai de 57,8% na crise de 2002 para 31,1% em 2013. Esse é o legado fiscal de Lula 1–2 mais o começo de Dilma 1, com superávit primário e câmbio. Depois sobe: 47,8% em 2016, 65,4% em 2020, 66,8% em 2025. A “dívida externa” que o debate pede é outra série, abaixo.

Banco Central do Brasil

Dívida externa (estoque / RNB)

% do RNB

Em 2003 o Brasil ainda era refém de dívida externa, 43,6% do RNB. Em 2008 já estava em 15,9% e virou credor líquido em moeda forte. Isso é um dos feitos objetivos de Lula 1–2, e também do boom de commodities e do superávit em conta corrente. A razão sobe de novo na recessão e na COVID, 38% em 2020, e fecha 2024 em 28,7%. Não voltou a 2003.

World Bank

Pobreza a US$ 8,30/dia (PPC 2021)

% da população

A pobreza cai de 50,9% em 2003 para 26,4% em 2014. Transferência corta pobreza medida: isso é aritmética, não desenvolvimento. Em 2020 despenca com o Auxílio de Bolsonaro (20,8%) e explode em 2021 (30,6%) quando o cheque encolhe. A pergunta é o que acontece quando a transferência para. Em 2024 está em 20,6%. O IBGE diz que, sem programas, a extrema pobreza iria a 10%. O Estado compra o número, e ao mesmo tempo compra o voto.

World Bank

Extrema pobreza a US$ 3,00/dia (PPC 2021)

% da população

A extrema pobreza cai de 17,1% em 2003 para 4,8% em 2014. Esse corte é o núcleo do que Lula 1–2 objetivamente fez. O 2,8% de 2020 é o Auxílio Emergencial, não um milagre estrutural, então 2021 volta a 7,5%. Em 2024 está em 3,0%. Na linha de US$ 2,15 do IBGE: 3,5% em 2024, 4,4% em 2023 e 9,0% em 2021.

World Bank

Desigualdade (Gini)

índice 0–100

O Gini vai de 57,6 em 2003 a 52,1 em 2014, 53,5 em 2019 e 50,3 em 2024. A queda grande é de Lula 1–2. O 48,8 de 2020 é o auxílio da pandemia. O Brasil continua um dos países mais desiguais do mundo; Chile e Uruguai são mais iguais. O Gini não mede se o pobre depende do Estado, só a forma da distribuição.

World Bank

Famílias no Bolsa Família / Auxílio Brasil

milhões de famílias

Não existe série de “% de dependentes”. Existe cobertura: FHC inventou os pedaços; Lula unificou e escalou; Bolsonaro saltou a 21 milhões no Auxílio Brasil de 2022, um ano eleitoral; Lula 3 mantém cerca de 20 milhões de famílias, 54 milhões de pessoas, 26% do país. O Cadastro Único cobre cerca de 34%. A pergunta não é se o cheque reduz a linha de pobreza, porque reduz. É se o adulto sai da lista. 2021 mostrou o inverso: corta o cheque, a pobreza volta.

Ministério do Desenvolvimento Social / Wikipedia (agrega série)

Homicídios por 100 mil habitantes

por 100 mil

Lula 1–2 não derrubou o homicídio: 28,3 em 2003 e 27,0 em 2010. O pico é 31,2 em 2017, já no Temer. A queda começa em 2018, antes de Bolsonaro completar um ano, e segue até 19,3 em 2023, no Lula 3. Segurança pública é sobretudo estadual. O FBSP mede 20,8 mortes violentas intencionais por 100 mil em 2024, metodologia policial, não idêntica à UNODC. Atribuir a curva a um presidente é o erro.

World Bank / UNODC

Desmatamento na Amazônia Legal (PRODES)

km² / ano

O pico absoluto é 2004, no primeiro mandato de Lula, com 27.772 km². Depois o PPCDAm derruba até 4.571 em 2012, já na Dilma. Bolsonaro sobe a 13.038 em 2021. Lula 3 registra 6.288 em 2024. A tese “Lula pior na Amazônia” falha na trajetória, e a tese “2004 não aconteceu” também falha.

INPE TerraBrasilis

Desemprego

% da força de trabalho

O desemprego vai de 11,2% em 2003 a 6,8% em 2014, 12,8% em 2017, 13,7% em 2020 e 6,0% em 2025. O piso de Dilma 1 não sobreviveu à recessão que ela mesma abriu. Lula 3 opera com o mercado de trabalho mais apertado da série recente, e com juro alto precisamente por isso. A metodologia da PNAD muda em 2012, então níveis pré e pós não são perfeitamente comparáveis.

World Bank / IBGE

Participação na força de trabalho

% da PIA (14+)

Quem para de procurar emprego some da taxa de desemprego. A participação era 63,6% em 2019 e caiu a 59,1% em 2020, na COVID. Em 2024 está em 62,8%, ainda abaixo do pré-pandemia. A FGV estima que a queda 2019–24 tirou cerca de 2,5 milhões da força que existiriam se a taxa tivesse ficado em 63,6%. A manchete de desemprego sozinha mente.

IBGE

Inflação ao consumidor

% ao ano

2003 abre em 14,7%, herança da crise de 2002, não de Lula. Meirelles e o Banco Central trazem a 4–6%. Dilma estoura a meta em 2015, com 9,0%. O 9,3% de 2022 é choque mundial e Petrobras. Em 2025 está em 5,0%, ainda acima da meta. O regime de metas é de 1999, de FHC. Lula 1 o preservou; Dilma o tensionou.

World Bank

Expectativa de vida ao nascer

anos

A expectativa de vida vai de 70,9 anos em 2003 a 75,8 em 2019, cai a 73,0 em 2021 na COVID e volta a 76,0 em 2024. É a tendência longa de países de renda média: SUS, saneamento, queda da mortalidade infantil. Não é um decreto presidencial. A COVID apagou dois anos, ainda assim a recuperação é rápida.

World Bank / UN

Mortalidade infantil

por mil nascidos vivos

A mortalidade infantil vai de 24,0 em 2003 a 16,0 em 2010 e 12,3 em 2024. A queda começa antes de Lula, com 29,1 em 2000, e continua depois. Bolsa Família com condicionalidade de vacina e pré-natal entra nessa curva, ainda assim não é o único motor. Chile e Uruguai já estão abaixo de 7.

World Bank / UN IGME

Alfabetização adulta

% dos adultos

A alfabetização adulta vai de 88,6% em 2004 a 90,4% em 2010 e 94,7% em 2024. É uma tendência lenta e contínua, e atravessa todos os governos. Não há ruptura Lula. PISA e distorção idade-série contam outra história sobre qualidade, porque esta série mede só o alfabetizado.

World Bank / UNESCO

Mandato no ano civil em que o presidente esteve a maior parte do tempo. 2016 fica em Dilma 2 porque a recessão é dela. Não interpolamos furos. “Dependência” não é série oficial, então usamos cobertura do Bolsa Família.

Método