2024 · lula

“Se o cara é corintiano, tudo bem”: a piada do presidente sobre bater em mulher

DocumentadoO princípio não se sustenta

A alegação

Lula disse que torcedor do Corinthians pode bater em mulher.

O que aconteceu

Em 16 de julho de 2024, numa reunião no Palácio do Planalto com empresários do alimento, Lula comentou uma pesquisa de aumento de violência doméstica depois de jogo. Disse: “Hoje eu fiquei sabendo de uma notícia triste… que depois do jogo de futebol, aumenta a violência contra a mulher. Inacreditável. Se o cara é corintiano, tudo bem, como eu. Mas eu não fico nervoso quando perco, eu lamento profundamente.” O vídeo é público. Dois anos antes, num comício em São Paulo em agosto de 2022, ele já havia falado do mesmo tema: “Mão de homem não foi feita para bater em mulher. Quer bater em mulher? Vá bater noutro lugar, mas não dentro da sua casa ou no Brasil.” Em 18 de julho de 2024 a Secom negou que houvesse endosso. Em 20 de julho Lula recuou e disse que “homem que é homem não bate em mulher.” A frase de 2024 não foi um recorte: é o período inteiro, com “tudo bem” e “como eu” no mesmo fôlego da estatística.

Falado em público

Se o cara é corintiano, tudo bem, como eu. Mas eu não fico nervoso quando perco, eu lamento profundamente.

Lula, Palácio do Planalto · 2024-07-16

Quer bater em mulher? Vá bater noutro lugar, mas não dentro da sua casa ou no Brasil.

Lula, comício em São Paulo · 2022-08-21

Primeiros princípios

O princípio não se sustenta

Violência doméstica não é piada de torcida. Um presidente que, diante do número, solta “tudo bem, como eu” revelou a hierarquia: o clube vem primeiro, a vítima depois. Recuar quatro dias depois não apaga o vídeo. “Gafe” é a palavra que a imprensa reserva ao aliado. Se a camisa fosse outra, o mesmo trecho viraria “projeto”. Vale o que a pessoa faz duas vezes, não o que a assessoria diz no quarto dia.

Comparação · No Brasil

A frase de Bolsonaro a Maria do Rosário (2014) é pior no conteúdo: estupro como insulto no plenário, com condenação. A de Lula é pior no cargo e na repetição, porque veio de um presidente da República em 2022 e de novo em 2024, no mesmo tema e com a mesma leveza. O padrão da imprensa não foi o mesmo. Carta Capital chamou de “piada machista”, enquanto Oeste e Gazeta trataram como relativização. As duas descrições cabem, ainda assim só uma virou capa de “projeto contra mulher.”

Comparação · No mundo

Chefes de governo que fazem piada com bater em mulher perdem o cargo em democracias que levam o tema a sério, ou, no mínimo, passam uma semana de contrição real. Biden, Johnson e Trudeau cairiam no mesmo vídeo. No Brasil o recuo é uma nota da Secom.

Fontes

Relacionados