2024 · lula

A aprendiz premiada que o presidente achou que era “namorada de alguém”

DocumentadoO princípio não se sustenta

A alegação

Lula tratou uma operadora negra premiada pela Volkswagen como cantora, batuqueira ou namorada de alguém no palco.

O que aconteceu

Em 2 de fevereiro de 2024, num evento na fábrica da Volkswagen em São Bernardo do Campo, Luiza Eduarda Leôncio, de 20 anos, estava no palco. Ela é operadora especialista, melhor aluna-aprendiz da companhia, com prêmio na Alemanha. Lula, em público, disse: “Essa menina bonita que está aqui… o que faz essa moça sentada? Falei: ‘Ela é cantora, vai.’ Não. Então ela vai batucar alguma coisa. Porque uma afrodescendente assim gosta de um batuque de um tambor. Também não é. Falei: ‘Nossa, então ela é namorada de alguém.’ Também não é. O que é essa moça?” Só então soube do prêmio. Não era um festival de música: era chão de fábrica, e a hipótese-padrão do presidente para uma mulher negra no palco foi espetáculo ou companhia de um homem. Oeste publicou o vídeo. A Gazeta do Povo registrou, no mesmo evento, outra linha: que “nenhuma mulher quer namorar com quem é ajudante geral.”

Falado em público

Porque uma afrodescendente assim gosta de um batuque de um tambor. Também não é. Falei: ‘Nossa, então ela é namorada de alguém.’ Também não é. O que é essa moça?

Lula, Volkswagen São Bernardo · 2024-02-02

Primeiros princípios

O princípio não se sustenta

Uma adulta no palco de uma fábrica não deve o lugar a um namorado. O presidente do país, de improviso, percorreu cantora, batuque racial e “namorada de alguém” antes de chegar a “aprendiz premiada.” Isso é o contrário de mérito: é o instinto de que a mulher negra está ali por espetáculo ou por um homem. O nome dela existia, e ele não o usou.

Comparação · No Brasil

A fala da Hebraica de Bolsonaro (2017) sobre quilombola “sete arrobas / procriador” é mais brutal na metáfora pecuária. A de Lula é de quem já era presidente, em 2024, no palco de uma multinacional, com a mulher ao lado. A imprensa grande chamou a de Bolsonaro de racismo de Estado e a de Lula de “gafe” ou “estereótipo infeliz.” O vídeo não muda de gênero conforme a camisa.

Comparação · No mundo

Um premier europeu que, no palco, chamasse uma engenheira negra de “namorada de alguém” e “quem gosta de tambor” cairia na semana. O registro americano de “gaffes” raciais (Biden “you ain’t Black”, “poor kids are just as bright”) é o paralelo de leveza com cargo. Nenhum deles era o chefe de um país com 56% de população negra ou parda tratando a premiada como adereço.

Fontes

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